• 20 de August de 2017
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“Nem só de Paris vive a França!”

“Nem só de Paris vive a França!”

Por: Paulo Panayotis | São Paulo - Brasil Categoria: Colunista

Turismo francês inicia processo de descentralização 

A frase é de Jean-Philippe Pérol, da Atout France. Em entrevista exclusiva ao InfoMoney, o diretor para as Américas da Agência de Desenvolvimento Turístico da França, fala pela sobre o projeto “Contract de Destination” ou o plano descentralização do turismo francês.




JE SUIS FILS D’OGUM
“Sou filho de Ogum no Brasil e do signo de libra no resto do mundo.” Rápido, olhar mordaz, um tanto desconfiado e de um humor ácido, Jean-Philippe Pérol me recebe na sede da Atout France, em São Paulo, indo direto ao assunto: “Está na hora da França deixar de ser só Paris para os brasileiros.” Mas antes de tentar destrinchar os inexpugnáveis e burocráticos mecanismos que movem o turismo francês, quero saber um pouco mais desta personalidade tão conhecida e respeitada no universo do turismo.

Brasil x México 
“Acabei vindo para o Brasil, em 1973, meio por acaso. A outra opção era o México”. Naquela época, segundo Pérol, quem trabalhava por um período nos consulados franceses fora da França valia como serviço militar obrigatório. Ele acabou escolhendo o Brasil porque viria com um amigo. “O amigo desistiu e eu acabei ficando por aqui”. O acaso, pelo visto, é um companheiro fiel. 

Formado em Administração de Empresas, Ciências Políticas e História, sua verdadeira paixão, acabou “tropeçando” no turismo. “Depois de  estagiar no consulado, fui trabalhar em uma operadora de turismo chamada Jet Tours, que era uma subsidiária da Air France. Dali saí direto para a Air France, como assistente de marketing.  Gostei! Fiquei! E acabei viajando muito pela América Latina com a missão de abrir novas rotas para a Air France” .  Dali em diante, morou em Manaus e em São Paulo, no Brasil, Frankfurt, na Europa e Nova York, nos EUA. Isso depois de viver com seu pai diplomata na Tunísia, no Marrocos e na Etiópia, na África. Curiosidade de menino: quando ia para a escola, em Adis Abeba, na Etiópia, ficava fascinado sempre que via o imperador desfilando de Rolls Royce preto escoltado por cavalos brancos vestidos de gala. “Nunca esqueci isso”.

Um executivo com “personnalité franco-brésilienne”

Abaixo, um pouco do que pensa, gosta e como um dos principais executivos do turismo brasileiro avalia a atual situação que o Brasil atravessa. O humor ácido, que ele usa para “desdramatizar” muitas situações tensas, também funciona como arma de defesa. “Você pode não acreditar, mas sou bastante tímido. Daí, sou ácido, muitas vezes irônico... Funciona muito bem... É uma arma muito efetiva que saco sempre que preciso”, conclui um Pérol que começa a entrevista disparando: “Oito por cento da economia brasileira poderiam vir do turismo! E ninguém, no Brasil, percebe a grandiosidade destes números”.

InfoMoney: Como vê o Brasil atualmente?

JPP - Vivemos um momento muito delicado para nossa atividade que é o turismo. Tanto para o turismo de exportação quanto para o turismo receptivo. Isto sem falar das viagens dos executivos e dos próprios empresários. Outro dia, conversava com um amigo meu, empresário, que me dizia: “Tenho que enxugar os quadros de minha empresa, readequar funções, racionalizar custos e finalmente, demitir funcionários em função da crise que o país atravessa. Como posso entregar para meu contador a conta de algum hotel onde me hospedei em Paris ou Londres? Sempre que viajo a negócios e tenho tempo, fico mais alguns dias a lazer. Mas quem acreditaria nisto? Diriam que estou gastando dinheiro em champanhe enquanto demito pais de família. Por conta disso, não viajo até a crise dar sinais de que está terminando”.  Concordo com ele.

Para mim, a incerteza em relação ao futuro próximo é o mais preocupante, pois a situação é grave. Veja: por que as pessoas viajam, especialmente no Brasil? 
Por dois motivos: primeiro quando a taxa de câmbio está favorável, quando o dólar regride e o real se fortalece. Segundo, por conta da percepção da economia. Se as pessoas sentem que a economia está boa, viajam, viajam bastante. No entanto, se a percepção de que a economia não está boa, se a sensação é de crise, não viajam. Especialmente para fora do país, para gastar em dólar. O brasileiro, apesar de não ter uma renda igual a outros países mais desenvolvidos, é um dos que mais gastam quando viajam.Veja você que, quando a economia vai bem no Brasil, a cada cem hóspedes em hotéis de alto luxo em Paris, sete são brasileiros. Quando as coisas vão bem, você encontra mais brasileiros em hotéis cinco estrelas  na França do que turistas alemães, cuja renda é muito maior.

InfoMoneyO que é necessário para que o País volte a ter mais turistas brasileiros em hotéis cinco estrelas em Paris?

JPP - Dois fatores: o primeiro não depende do Brasil. Depende, do meu ponto de vista, da economia chinesa, que tem que voltar a crescer, a comprar commodities, como minério brasileiros, por exemplo. 
O segundo é que o Brasil tem que fazer, urgentemente,  reformas políticas em todos os setores, como previdência, administrativa e melhorar a infraestrutura aumentando a competividade e diminuindo o custo Brasil, que é  dos mais altos do mundo. Além disso, a população brasileira tem que se convencer de que turismo é muito importante para o País. Enquanto os próprios brasileiros não se convencerem disto, pouca coisa mudará ou mudará muito lentamente.

InfoMoneyA CEO da LATAM, Claudia Sender, disse que é a favor que os passageiros brasileiros paguem por suas bagagens durante as viagens aéreas nacionais e internacionais. Você concorda com isso?

JPP - A questão é que a pergunta está errada. Os passageiros já pagam pelas bagagens. 
A pergunta correta não é quem paga pelas passagens, mas sim como tem que pagar. Hoje todos já pagam valores embutidos nas passagens. A tarifa é igual para todos, com bagagem ou sem bagagem. O ideal seria que quem viaja sem bagagem tivesse uma tarifa menor, diferenciada. Automaticamente quem leva duas malas enormes, pagaria mais pelo conforto de levar o que bem quiser durante a viagem. Não acho justo que todos paguem a mesma tarifa. Lá fora já é assim. Mais malas? Tarifa maior. Menos malas? Tarifa menor. 

InfoMoneyHouve redução no número de turistas que viajam para a França com a crise brasileira?

JFP - Houve uma queda forte nos últimos anos e deve continuar mais forte ainda neste ano de 2016. Em 2015 a queda foi de cerca de dez por cento em relação ao ano anterior. Ou seja, mandamos algo em torno de 600 mil turistas brasileiros para a França. A maior parte deles para Paris.Em 2016, pelos números preliminares, a queda deverá ser ainda maior, algo em torno de 10 a 15%. Nossa expectativa é de que  chegue a 550 mil passageiros turistas. Além da questão econômica no Brasil, os últimos atentados terroristas na Europa, em especial na França, deverão contribuir ainda mais para esta queda. Apesar do governo francês e das autoridades europeias fazerem todo o possível no combate ao terror, o impacto é muito forte em nosso setor do turismo. Veja, segurança total não existe, mas os turistas tem que ter a sensação de segurança. Se não tiveram, não viajam! E as autoridades estão empenhadas ao máximo para tentar devolver esta sensação de que é seguro viajar na França.

 

InfoMoneyQual a estratégia da Atout France para ajudar a tentar reverter esta situação? Há algum plano?

JPP - Sim. Nossa ideia, que já colocamos em prática há quatro anos, é descentralizar o turismo. Nosso projeto leva em consideração que hoje em dia se viaja para o destino A ou B e não para o país A ou B. Assim, há quatro anos passamos promover o destino. 
E já começam a ter um retorno significativo. Hoje o brasileiro, que viajava quase que exclusivamente para Paris, já diz: vou passar férias na Provence, ver os campos de lavanda. Já é resultado de nosso esforço de promover o destino, não o país! 
E para que isso seja vitorioso contamos com a participação das entidades de turismo das regiões, dos organismos de turismo locais aliados à iniciativa privada e a diversas instituições, como por exemplo, os sindicatos locais.

InfoMoney - Pode dar um exemplo?

JPP - Trata-se de um tipo de PPP (Parceria Público Privada). Participam Governo da França, administrações locais, associações, sindicatos enfim, a sociedade organizada. 
Afinal, ninguém conhece melhor a região do que quem mora nela! Por isso a  promoção turística do destino tem que ser feita  pelo próprio destino. 
Um bom exemplo é a qualificação que fizemos com os motoristas de táxi de Bordeaux. Notamos que poucos falavam inglês, então qualificamos eles em parceria com o sindicato local dos taxistas, que se comprometeu a incentivar a categoria a estudar inglês e fornecer os cursos. Então houve o apoio federal, estadual e local público e privado. E funcionou perfeitamente! Fizemos e estamos fazendo isto também na Martinica, em Guadalupe e em Biarritz. E tem dado excelentes resultados!
Outra iniciativa foi a de criar linhas aéreas para destinos do Caribe francês, que saíssem do Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. 
Nosso parceiro, neste caso, foi a Air France. Assim, fomentamos a ida de mais turistas para o Caribe francês com os voos sem escalas saindo de CDG. Mais uma vez funcionou perfeitamente! 
Chamamos o plano de Contract de Destination (Contrato de Destino), que envolveu, além de engenharia turística, a participação do governo em todos os níveis atuando em conjunto com parceiros privados e associações locais. 

InfoMoney- Para isso funcionar, além da participação de todos, também é necessário fortalecer a cadeia produtiva turística, especialmente a infraestrutura local e aumentar o número de leitos bem como melhorar a qualidade dos serviços prestados, certo?

JPP - Correto. Um bom exemplo é o  turismo religioso. Em Portugal, isso é muito claro com os milhões de turistas que visitam Fátima anualmente. Queremos fazer isto também com Lourdes, que já é bastante conhecida. Mas juntamente com a experiência do turismo religioso queremos melhorar a qualidade dos hotéis, do transporte, dos restaurantes locais! Fazer turismo religioso não significa fazer penitência, comer mal, dormir pior ainda! Toda a experiência tem que ser prazerosa e não somente a visita a lugares santos.  Por isso estamos investindo em qualificação local e melhoria das estradas, da infraestrutura local. Tudo em parceria, tudo com a participação local, de quem sabe efetivamente o que é preciso melhorar. 
Acho que é fundamental descentralizar. Trata-se de uma necessidade fundamental descentralizar. Até porque 85 por cento dos brasileiros que visitam a França tem como foco Paris. E a França é muito mais do que a capital francesa! Hoje, Paris e um pouco da Cote D’Azur se vendem sozinhas. Mas é só! E o restante da França?
Hoje cerca de 85% dos pernoites de brasileiros são em Paris! Nosso objetivo é estabelecer um equilíbrio. 
Acho que Bordeaux tem essa vocação para ser a primeira grande região, além de Paris e da Cote D’Azur, que poderá se transformar em um grande atrativo para o turista brasileiro que já foi uma, duas vezes a Paris e quer conhecer algo diferente na França. Em seguida acho que a região de Nice, em Cannes, tem grande potencial bem como Lyon, em função da grande diversidade de restaurantes de alto nível por lá! E posso garantir que temos muita diversidade a oferecer!

A Atout France é assim:

Diretor para as Américas : Jean-Philippe Pérol

Funcionários: 400 no mundo, 11 no escritório brasileiro em São Paulo.

Site: http://br.france.fr

Quem é Jean-Philippe Pérol

Nascimento: 
Pérol nasceu em 9 de outubro de 1950, em Túnis, na Tunísia.

Formação: 
Formado em Administração de Empresas pelo lnstitut d'Études Politiques de Paris, com graduação em História (Sorbone-Paris) Gestão (Dauphine-Paris) com especialização em América Latina, África e Ásia.

Atuação profissional: 
Com larga experiência profissional, sempre exerceu cargos de direção em diversas empresas privadas e organismos públicos ligados ao turismo como Consulados da França, Air France, Maison de la France (Frankfurt, Nova York, São Paulo, Rio de Janeiro e Manaus) entre outros.

Pessoal
Casado duas vezes. Tem um filho com 33 anos, com a primeira esposa, que é brasileira. E uma filha de apenas oito meses com a segunda esposa, que é da Guiana Francesa, com quem está casado há mais de 15 anos.

Idiomas : Francês, Portugues, Inglês, Espanhol e Alemão. 

Hobby : Adora história, xadrez, pesca esportiva e, é claro, viajar. 

Livro : 1808, de Laurentino Gomes. “Adorei! Releio de vez em quando”.

Série de TV: Nenhuma, pois não vê televisão. “Quando morei em NY nunca tive TV”.

Gadjet: Todos. “Sou viciado em web. Meu preferido atualmente é ler notícias internacionais no laptop”.


Destino preferido fora França e Brasil: “Machu Picchu, no Peru, onde já estive três vezes”.

O que move Jean-Philippe Pérol
“Me comunicar, encontrar pessoas, viajar para  conhecer novas pessoas e voltar para contar minhas histórias para outras pessoas conhecidas ou não! Acredito no ser humano. Sempre acreditei. E acredito também que o que falta é administrar bem este ser humano e dar a ele uma boa liderança. 
O resto é trabalho, trabalho, trabalho!